A Santa Casa de Misericordia Paraense noticia historica 1650-1902 mandada elaborar e publicar pelo governador Antonio José de Lemos Arthur Vianna
- 60 A SANTA CASA DA MISERICORDIA liram á construcção do hospital; vê quasi concluído o edificio, e julga que a fundação de uma sociedade ou congregação geral va- telle; que as suas entranhas se petrefiquem e se fação insensivei aos tristes gemidos da pobreza, elle ouvirá sempre no fundo d'alma esta voz maviosa, com que arazão o dispert.1, e confunde : Ah barbara! quem he o pobre, e se ser que reputas tam desprcsivel? Não sabes que hc hum ramo da grande arvore da Humanidade, sobre que deve circular essa parle de ~ubsistencia, que ou inutilmente retens ou despesdiças sem acordo? ão sabes que be hu'm Cida<lão d, Cidade universal de toda aterra. e hum nobilíssimo membro da grande Sociedade, que abraça o Gencro humano, formada unicamente sobre os L aços recíprocos debuma commica natureza? Como pois estando unido com ell e por tam intimas relaçoens podes vêllo com olho· tranquilos, envollo na dor e na miseria ? Acaso bum Deos soberamente jil-to deixaria introduzir a differença das hon– ras, e dos bens exteriores entre os t:re perfeitamente iguaes se ella os não quizesse ligar mais estreitamente por esta m_esma dezegualdade, dando occazião aos ricos, como diz S. Cbrisostomo, Kl de repartir dos seus bens com os pobre. , e indigentes ? E qual poderia ser o fim porque o Su– premo Arbitro de lodas as condiçoens do mundo quereria elevar huma parte dos bomen a es te degráo de prosperidade, que os destingue, senão para que elles fossem os substitutos, os 1\1ini~tros, e os cooperadores da sua providencia para com o resto dos homens, que gemem na miseria? Não, não : soccorrer os indigen tes, consolar os desgraç;tdos, procurar o ali vio dos po– bres enfermos não são actos de huma generosidade pura, e gratuita, como te inspira a insaciavel cob iça ; ão deveres arreigados profu ndamente nas entranhas da Justiça natural: fa ltar aclles não he sóferir a L ei da Providencia ; mas a natureza me mo do homem. N ão posso : não tenho superfluo : vejo-me cercado de huma numeroza familia, aque elevo prover: são tempos calamitozos, apenas me deixão com que p, ssar honestamente : não ei o que me póde acontecer: alem disto, quantos pobres vad ios, negligentes, capazes para o trabalho! 1 ão são estes, amados Filhos, os pretex tos ordinarios, com que se cobre a torpe avareza ? Não ão estas as maquinas mais furiozas, de que se serve o Inferno para abalar, e destruir o amavcl pr ecei to ela Caridade Christan ? P orem maquinas fantasticas, que clesapparecem ao primeiro raiar ela Luz ela verdade. N ão tendes supcríluo, ricos do mundo ! Ora examinai primeiro qual bc a regra por onde form ais este juízo : bc o Christianismo ou a paixão? Certamente se consuitardes es ta insaciavel sauguesuga, nunca lhe ouvireis outra palavra fóra desta, que a E criptu ra lhe poem na boca : affer, affer: mai. emais. E se não dizei que homem vistes ja devorado da infeli z paixão da avareza por mais opulento, e favorecido dos bens dafortu na que dicesse : Basta ? O coração humano entregue aos seus desejos he bum vasto, e iusondavel abismo, que ainda depois de absover rios cauclalozo , sempre abre a informe garganta. P orem reprimi as paixoens, ouvi o E vangelbc, e attendei somente á regra da Fé, regra prudentíssima, e universal, que sabe prover aludo, acordar as clecencias do estado com as neces– sidades dos pobres, e ouzo L egi timo dos bêns com amodestia, e simplicidade Chri ·tan : cm huma palavra ; regulai as vossas despezas pelas maximas do Christianismo, clogo achareis su– perfluo : Sim, vos o achareis cm tudo que co~tumais conceder úvaidade, e ao fausto de huma pompa mundana; vos o achareis em tudo oque empregais na satisfação das paixoens desordena- g) Homil. 32. in E p. ad Corint. 7> 1
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