Alam José da Silva Lima

Núcleo de Pesquisa

Na época das comemorações do tricentenário da fundação de Belém em 1916, o então governador do estado, o Dr. Enéas Martins (1872-1919), mandou publicar um guia do Pará. E para tal empreitada, a tarefa recaiu no célebre pintor e autor Theodoro Braga (1872-1953).

A publicação intitulada “Guia do Estado do Pará”, lançada em 1916, possuía 198 páginas mais o índice, e foi impressa em Belém na “Typographia do Instituto Lauro Sodré” (Foto1). Estava dividida em cinco partes compreendendo os mais variados aspectos do Pará. A Biblioteca Pública Arthur Vianna possui em seu rico acervo esta obra, já disponibilizada em mídia digital, através do site do setor de Obras Raras.[1] A seguir, faremos uma breve explanação sobre as características da mesma.

Foto 1. Folha de rosto do Guia do Estado do Pará, 1916.

O “Guia” era uma publicação oficial do governo do estado do Pará, por isso servia para fazer a propaganda dos avanços daquela administração, revelando um estado que se modernizava, já possuindo uma boa infraestrutura, com as comodidades daquele período em serviços e construções. Um bom exemplo do caráter propagandístico da obra vem da fotografia do governador,colocada no início, como forma de evidenciar quem patrocinava aquela publicação (Foto 2). Embora nos dias atuais seja uma obra rara, com poucos exemplares, provavelmente em 1916 quando foi lançada teve uma alta tiragem, como forma de atender aos propósitos de divulgação do Pará e da cidade de Belém. Por isso mesmo, as fotografias não possuem uma boa qualidade gráfica, se assemelhando ao que era reproduzido em jornais ou livros comuns.

Foto 2. O governador Dr. Enéas Martins.

Na sua primeira parte, apresenta um resumo histórico do Pará, da sua geografia física, e da Constituição Política do estado, contendo uma “Planta da cidade de Belém”, para apreciação dos lugares apresentados e mencionados na obra (Foto 3). Assim, o autor descreve os eventos que vão da chegada e conquista da região pelos portugueses no século XVII, até os eventos do ano de 1915, anterior ao lançamento da obra. Faz também um resumo das formas de governo que o nosso estado teve, desde os capitães mores até os governadores eleitos. Comenta um pouco sobre os aspectos geográficos, sobre o clima e a população de nosso estado. Ao final deste capítulo trata da Constituição Política do Pará, que seguia os princípios da Constituição Federal, estabelecida pela República desde o 15 de novembro de 1889. Ao longo do texto, são intercaladas fotografias em preto e branco ilustrativas da cidade de Belém, paisagens naturais, alegorias republicanas etc.

Foto 3. Planta presente no Guia do Estado do Pará.

Na sua segunda parte, o foco se concentra na capital evidenciando os seus aspectos físicos, e os visitantes “ilustres” que passaram pela cidade, tais como Charles Page Bryan (Ministro Plenipotenciário dos EUA) em 1901; a visita do Cardeal Julio Tonti (Núncio Apostólico no Brasil) naquele mesmo ano; a visita do ex-presidente americano Theodore Roosevelt em 1914, entre outros. Continuando a obra, observa-se um panorama da cidade na parte intitulada “rápido golpe de vista”. Trata-se, de um percurso de um passageiro “imaginário” que após desembarcar no porto de Belém, passa a percorrer as suas principais ruas, avenidas e bulevares, observando as construções etc. Com fotografias ao longo do texto, apresenta as principais edificações da cidade, monumentos, entre outros (Foto 4).

Foto 4. Aspecto da Avenida da República na cidade de Belém.

A terceira parte da obra destaca os meios de comunicação tais como o Telégrafo Nacional, o telégrafo sem fio, os telefones e o correio. Esses meios de comunicação com o interior e o restante do país eram vistos como sinal de modernidade e progresso. Também apresenta o serviço de transporte terrestre para o interior do Pará, tal como a Estrada de Ferro Belém – Bragança e as suas paradas. São mencionados os serviços de transporte urbano como os bondes, os carros de aluguel e os carros de luxo, bem como os transportes marítimos com os destinos internos, brasileiros e para o exterior. Todos esses serviços são apresentados com os seus respectivos valores, normas, dias e horários de funcionamento(Foto 5).

Foto 5. Meios de transporte urbano, no caso os bondes.

Por fim, na parte sobre os “arrabaldes”, são mostrados os lugares fora da cidade de Belém que eram utilizados para o descanso e lazer, tais como Ananindeua, Vila de Santa Isabel, Vila de Castanhal, Vila do Mosqueiro etc. Nesse caso, alguns dos locais mencionados ainda são procurados pelos paraenses para o seu descanso ou lazer nas férias ou feriados(Fotos 6 e 7).

Foto 6. Aspecto da Praia do Chapéu Virado em Mosqueiro.

Foto 7. A ponte de Mosqueiro.

Na quarta parte são fornecidas informações sobre o serviço dos consulados estrangeiros existentes em Belém, uma vez que tínhamos saídas de vapores para vários destinos como Nova Iorque, Londres, Hamburgoentre outros.  São elencados os bancos presentes na cidade, tais como o “London and Brazilian Bank Limited”, o “Banco Commercial do Pará”, o “Banco do Brazil”, além das casas de câmbio e Companhias de seguros. Interessante notar as informações sobre o meio circulante da época, o padrão réis com moedas e cédulas de grandes valores. Logo após,temos uma sequência de informações sobre os hotéis e pensões, bares, cafés, confeitarias e mercearias na cidade. Em seguida,são mencionados profissionais como os advogados e as livrarias, com menção à “Livraria Universal”, a “Clássica” e a “Alfacinha”.Não são esquecidos os médicos, os dentistas e as farmácias. Depois, o autor trata do serviço de higiene e dos hospitais em Belém, com destaque para a Santa Casa.

Sobre a segurança pública, ressalta-se o papel da polícia e dos “vigilantes noturnos”, que garantiam o bem-estar social e patrimonial. As lojas de modasnão poderiam deixar de ser citadas, entre elas a “Paris n’América”,o “Bon Marché”, entre muitas outras. Vale ressaltar o destaque que o Guia dá para a diversão e os esportes na capital, com os teatros existentes “Theatro da Paz”eoPalace Theatre”, cinematógrafos como o “Cinema Olympia”, bares e os clubes esportivos, tais como o “Club do Remo” e o “Paysandú Club” (Fotos 8, 9 e 10).

Foto 8. Aspecto de um campo de futebol da época.

Foto 9. Dia de Re – Pa em Belém.

Foto 10. Vista do Theatro da Paz.

Nesta parte do “Guia” também são mencionados os monumentos de Belém, os seus parques e praças, as suas igrejas, e as suas edificações particulares como os casarões (Foto 11). Com o destaque para o Museu Emilio Goeldi, a Praça da República e o Bosque Rodrigues Alves. Os edifícios públicos como o Palácio do Governo e o Palacete Municipal também são destacados, bem como outros(Fotos 12 e 13). A instrução pública não ficou de fora e os grupos escolares são mencionados com os seus dados gerais. Os templos religiosos são apresentados de acordo coma religião correspondente(os católicos, os protestantes e evangélicos, e o judaico). Interessante ressaltar que as Lojas maçônicas são apresentadas nesta mesma parte, como se tratasse de uma religião.

Foto 11. Vista da Basílica de Nazaré em construção.

Foto 12. Palácio do Governo em Belém.

Foto 13. Palacete Municipal (Prefeitura de Belém).

Na quinta e última parte do “Guia” é apresentada a produção econômica do estado, além dos cinquenta e seis municípios até então constituintes (atualmente são cento e quarenta e quatro). Aqui é ressaltado que, apesar da produção da borracha ser o carro chefe da economia, esta ia bem além com a pecuária, a extração de madeiras, o extrativismo do cacau, castanha, óleo de copaíba, entre outras (Foto 14). E por fim, apresenta todos os municípios existentes, destacando alguns dados sobre a produção econômica dos mesmos, o número de habitantes, e os elementos de maior destaque locais.

Foto 14. Beneficiamento da borracha.

O Guia do Estado do Pará é uma ótima fonte de informações sobre o nosso estado e sobre a Belém dos inícios do século XX, pois traz vislumbres de uma época e de um espaço já desaparecidos há muito tempo pelo “progresso”. Era o tempo em que a cidade de Belém ainda vivia os ares de Paris nos trópicos, e os municípios do interior eram locais de pura paz e tranquilidade.

Bibliografia

Braga, Theodoro. Guia do Estado do Pará/ Organizado por determinação de S. Exa. Sr. Dr. Enéas Martins, Governador do Estado, em commemoração do 3.º centenário da fundação da cidade de Belém por… Belem: Typographia do Instituto Lauro Sodré, 1916.

[1] Para acessar a referida obra, basta entrar no portal da FCP no site: www.fcp.pa.gov.br e entrar nas Obras Raras – Acervo Digital ou acessar: www.obrasraras.fcp.pa.gov.br