O “Roteiro da viagem da cidade do Pará, até as últimas colônias do sertão da Província” por José Monteiro de Noronha (1768).
Núcleo de Pesquisa
Alam José da Silva Lima
A obra do padre José Monteiro de Noronha, escrita por volta de 1768 na Vila de Barcelos, é uma importante obra colonial que apresenta uma série de informações sobre a região, natureza e populações da Amazônia na segunda metade do século XVIII. Neste artigo, trataremos das informações técnicas e aspectos gerais sobre esta interessante obra.
O seu autor nasceu em Belém no dia 24 de novembro de 1723. Era filho de Domingos Monteiro de Noronha Furtado de Vasconcelos e de dona Catarina de Barros e Silva Pestana Franco. De sua educação sabemos que estudou no Colégio de Santo Alexandre da Companhia de Jesus, localizado em Belém. Sobre outros aspectos de sua infância e juventude não possuímos muitos detalhes. Foi casado durante algum tempo e após se tornar viúvo, resolveu entrar para a vida sacerdotal. A partir de então, desenvolveu a sua carreira eclesiástica. Foi vigário geral e visitador da capitania do Rio Negro. Em Belém foi vigário capitular mais de duas vezes, e foi ainda vigário geral e governador do bispado paraense.
A sua principal obra foi o “Roteiro”, escrito na Vila de Barcelos, atual cidade de mesmo nome. Foi por conta de seu trabalho como visitador, que o levou a viajar pelo interior das capitanias do Pará e do Rio Negro, que o incentivou a escrever sobre o que viu ao longo do caminho fluvial que percorria constantemente.
Muito embora a obra tenha sido escrita em 1768, foi publicada em livro somente em 1862 no Pará, através da Typographia de Santos & Irmãos. Anteriormente, circulou na forma de cópias manuscritas, sendo que existem diversas delas guardadas em instituições como a Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro, no IHGB (Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro) e na Biblioteca Nacional de Lisboa.
Analisaremos neste artigo a edição impressa publicada no Pará em 1862. Ao todo, a obra possui 77 páginas, ou seja, não é muito extensa, sendo acrescida de mais cinco páginas do índice, que trata das vilas, lugares, povoações e freguesias do bispado do Pará que são mencionadas na obra.
¹ Além da edição impressa de 1862 feita no Pará, a obra de Noronha foi publicada no Jornal de Coimbra de 1820, volume 87 (I), pp. 87-145; na Collecção de Noticias para a Historia e Geografia das Nações Ultramarinas que vivem nos Dominios Portugueses ou lhe são Vizinhas, de 1856, volume 6 (I), pp. 1- 85; e na Revista do Instituto Histórico e Geografico Brasileiro, de julho – setembro de 1989, volume 150, (364), pp. 475-513. Informação extraída da introdução de Antonio Porro da edição da Edusp. Ver: Noronha, José Monteiro de. Roteiro da Viagem da Cidade do Pará até as Últimas Colônias do Sertão da Província (1768). São Paulo: Edusp, 2006.

Foto 1. Folha de rosto da obra de Noronha, edição de 1862
A sua estrutura não é dividida em capítulos, sendo uma característica de muitas obras escritas durante os tempos coloniais. O autor desenvolve toda a sua obra em parágrafos numerados, sendo 193 no total, com tamanhos variados.
Nesta edição aparece uma gravura de um barco à vela na folha de rosto da mesma. Já a segunda edição impressa do livro, que foi somente publicada em 2006, pela editora Edusp, esta acompanhada de oito gravuras (fólios) de autoria de João André Schwebel. Este artista que foi um contemporâneo de Noronha, realizou várias gravuras nas quais aparecem, lugares e vilas da região amazônica, mencionadas por Noronha no seu livro.

Foto 2. Parte inicial da obra “Roteiro…” de Noronha
Noronha descreve como era feita a viagem fluvial da cidade de Belém até a capitania de São José do Rio Negro (atual Manaus). Assim, descreve os rios que seriam encontrados pelos viajantes, com os dados sobre a cheia e vazante da maré no percurso. Vale mencionar que, o autor comenta sobre o fenômeno a “pororoca”, quando as águas dos rios da Amazônia se encontram com as águas do mar na sua foz, criando ondas fortíssimas nos mesmos rios. Talvez Noronha tenha sido um dos primeiros autores a comentar sobre esse fenômeno, que ocorre durante a fase da maré cheia.
O autor fala um pouco da fauna amazônica, destacando a grande abundância de peixes e de tartarugas em alguns dos rios da região. Comenta também de forma breve sobre os produtos da floresta mais comercializados, tais como o cacau, o cravo, a salsaparrilha, os óleos de copaíba, o café, o açúcar, o tabaco, o algodão, e os couros que seguiam para fomentar o comércio da metrópole portuguesa.
Como se tratava de um roteiro basicamente fluvial, Noronha comentava a respeito dos trechos mais perigosos para a navegação. Esta seria, nas suas próprias palavras “trabalhosa e perigosa” em vários trechos, nos quais existiam obstáculos como os saltos, as cadatupas (quedas d’água volumosas e barulhentas) e as muitas pedras.
Por fim, havia o risco por conta das tribos de “gentios” que povoavam as suas margens. O autor destaca o caso dos Muras, que eram considerados muito perigosos pelos portugueses, pois eram conhecidos como o “gentio de corso”, atacando as embarcações dos viajantes e lhes roubando as suas cargas, assassinando os seus tripulantes. Essas ações levaram a muitas represálias por parte das autoridades coloniais, onde muitos desses indígenas acabaram sendo dizimados, nas chamadas “guerras justas”.

Foto 3. Parte do Roteiro a respeito da capitania do Rio Negro.
Pode-se dizer que um dos elementos mais importantes do seu “Roteiro” é a menção às várias etnias indígenas, presentes nas margens do Rio Amazonas e Rio Negro. Noronha faz uma análise quase “antropológica” de alguns costumes dessas etnias, destacando “curiosidades” observadas, desde tribos que supostamente possuíam “caudas” até a antropofagia (canibalismo), praticadas por algumas das etnias com os seus inimigos. Também comenta sobre o costume de algumas das etnias, no qual, se ingeriam as cinzas de seus antepassados, etc.

Foto 4. O índice da obra de Noronha.
É evidente que são observações do homem branco, cheias do preconceito que havia a respeito dos povos considerados “primitivos”, presentes na região Amazônica. Além disso, devemos lembrar-nos da formação eclesiástica que trazia em seu bojo toda uma série de recriminações a respeito das religiões praticadas pelos indígenas, seus rituais, etc.
Seja como for, a obra possuí o grande mérito de citar e comentar a respeito dessas etnias no período da segunda metade do século XVIII, trazendo informações importantes para os antropólogos e etnólogos atuais, que se debruçam sobre os antigos povos originários que habitavam os sertões às margens dos rios da Amazônia.
O “Roteiro” de José Monteiro de Noronha pode ser encontrado na íntegra na Biblioteca Pública Arthur Vianna, no site da biblioteca digital on-line, no portal da FCP (Fundação Cultural do Pará) www.fcp.pa.gov.br, na Seção de Obras Raras – Acervo Digital, na seção dos Livros.
As informações sobre dados familiares do autor foram extraídos de : www.roberiobraga.com.br/glossary/jose-monteiro-de-noronha, acessado em 12-05-26.