Alam José da Silva Lima
Núcleo de Pesquisa da BPAV
Por volta de 1937, foi lançada uma obra a respeito do terceiro presidente cabano, Eduardo Angelim, escrita por uma descendente do famoso líder paraense. A obra em questão é “A vida singular de Angelim: a cabanagem”, de autoria da escritora paraense Dilke de Barbosa Rodrigues, nada mais nada menos que bisneta de Eduardo Angelim. Neste artigo, exploraremos alguns aspectos dessa obra.
A autora nasceu em 02 de novembro de 1907 no Pará e faleceu em Brasília a 02 de agosto de 1980. Era filha do botânico João Barbosa Rodrigues Junior e de dona América de Madureira e Pará. Seu nome completo era Dilkea Johanesia Montaury Pará Barbosa Rodrigues.
Ao longo de sua vida publicou muitos contos e crônicas para revistas nacionais e jornais da época, tais como “Fon Fon”, “Jornal do Brasil”, “Diário Carioca”, “Brasil Feminino”, “Walkyrias”, etc. Em se tratando de livros, publicou: “Entre esmeraldas e rubis” (1930); “Avida singular de Angelim” (1937), e “Barbosa Rodrigues, uma glória do Brasil” (1945).
Sobre a sua vida inicial possuímos poucos detalhes. Sabemos que estudou no Colégio da Quinta Carmita em Benfica; realizou os seus estudos secundários em cursos preparatórios, para prestar exame no Colégio Paes de Carvalho. Posteriormente, cursou a Escola Politécnica do Rio de Janeiro, e nos EUA cursou Atuária e Estatística. De volta ao Pará, teve uma longa carreira no magistério, como professor em várias escolas da região, tais como Paes de Carvalho, Gentil Bittencourt, etc. Devido ao seu grande profissionalismo, se tornou membro da Academia Paraense de Letras (APL); também foi Secretário Geral da Comissão Paraense de Folclore; sócio fundador do Instituto de Antropologia e Etnologia do Pará; sócio correspondente do Instituto Arqueológico e Geográfico de Pernambuco, entre outros.
O seu segundo livro intitulado “A vida singular de Angelim: a cabanagem” se trata de uma biografia do líder cabano Eduardo Angelim, desde o seu nascimento no Ceará, sua vinda ao Grão-Pará, passando por toda a sua trajetória durante os anos turbulentos da Cabanagem (1835-1840), sua detenção, retorno ao Pará e morte na sua fazenda Madre de Deus no Acará.
A obra foi editada no Rio de Janeiro (capital Federal na época), pela editora dos irmãos Pongetti. Em formato de brochura, possui no total 207 páginas, sem ilustrações ou gravuras ao longo do texto. Apresenta na capa cartonada, uma espécie de desenho de Eduardo Angelim, só que com aspecto mais envelhecido do que no único retrato conhecido deste, geralmente encontrado nos livros. A autora, por sua vez, aparece na única fotografia do livro, bem no início da obra.

Foto n.º 1. Capa da obra com retrato de Eduardo Angelim com aspecto envelhecido.

Foto n.º 2. Retrato da autora no início do livro.
O livro foi prefaciado por Pedro Calmon (1902-1985), grande professor universitário, historiador, biógrafo, etc. Logo após é seguido por uma correspondência (carta) de Thomaz Pará, auditor de “Guerra em São Paulo”. No “Prólogo”, temos a introdução da obra, que é por sua vez dividida em três partes, com capítulos de tamanhos desiguais. A primeira parte possui sete capítulos. A segunda parte possui nove capítulos, e a terceira possui o maior número de capítulos com quatorze ao todo, seguidos pelo epilogo e o índice.

Foto n.º3. O índice da obra e seu conteúdo.
A respeito da análise dos fatos que compõem a obra, pode-se dizer que a autora era uma escritora, não se tratando de uma historiadora de carreira, portanto, não faz uma análise mais aprofundada dos fatos ali apresentados. Como se tratava de uma biografia de um ancestral de sua família, o objetivo principal era de destacar os aspectos positivos do biografado, deixando de lado as maiores polêmicas.
Dessa forma, a obra não possui grandes referências bibliográficas ou das fontes documentais que foram utilizadas para produzi-la. Existem algumas poucas notas de rodapé explicativas em alguns capítulos, bem como algumas poucas referências das fontes consultadas. Como exemplo disso, vale destacar que ao falar a respeito da morte de Angelim, a autora cita o “obituário” dos jornais da época, mas não faz a referência completa dos mesmos jornais (números dos jornais, páginas dos obituários, etc.).
Ainda assim, a obra de Dilke representa a inovação de ter sido escrita por uma mulher, num período (anos 30) em que a maior parte das obras publicadas no território nacional tinha homens como os seus autores. A maior parte das obras, hoje já clássicas sobre a cabanagem, foi escrita por autores como Jorge Hurley, Ernesto Cruz, etc., sendo a obra de Dilke, talvez a primeira escrita por uma mulher abordando o tema da Cabanagem.
Quem quiser se aprofundar na obra “A vida singular de Angelim”, pode consultá-la no acerco on-line da Biblioteca Pública Arthur Vianna. O exemplar existente pertenceu à biblioteca privada do ex-governador do Estado Lauro Sodré, contendo uma dedicatória da autora Dilke para o mesmo e sua esposa.

Foto n.4. Dedicatória da autora para o ex-governador do Pará, Lauro Sodré e sua esposa.
Para acessar a obra na íntegra, basta entrar na página da FCP, www.fcp.pa.gov.br, na seção “Obras Raras – Acervo Digital”, na parte correspondente aos livros digitalizados.
As Informações pessoais da autora foram extraídas do site: https://memoria.bn.gov.br/DocReader/DocReader.aspx?bib=259063&Pesq=%22Dilke%20Brabosa%22&pagfis=72071 , acessado em 07/04/26.