Alam José da Silva Lima

Núcleo de Pesquisa

A valorização do rico folclore da região Amazônica, muito em voga nos dias de hoje, deve muito a uma obra já centenária, de autoria de José Coutinho de Oliveira, um grande folclorista paraense. Neste artigo, iremos destacar uma de suas mais importantes obras, intitulada “Lendas Amazônicas” e suas características principais.

Foto n.º 1. A Capa das “Lendas Amazônicas” publicada em 1916, para o tricentenário da fundação de Belém.

Nos inícios do século XX, ainda sob os “faustos” da economia da borracha e embalados pelo franco progresso que parecia não ter fim, o Pará e a região Amazônica pareciam abandonar as suas raízes folclóricas e culturais, em troca de tudo o que era europeu, considerado por muitos, como mais requintado e melhor. Nesse sentido, as ricas lendas da região pareciam estar morrendo e deixando de ser conhecidas pelo povo, que consumia e absorvia lendas e mitos de origem europeia ou oriental.

É nesse contexto, que uma voz começou a se destacar no cenário regional para preservar a rica cultura da Amazônia. O seu nome era José Coutinho de Oliveira, nascido em Belém a 19 de outubro de 1887, filho de José Marcelino de Oliveira e de dona Thereza Coutinho de Oliveira.

Sobre a sua vida inicial possuímos poucos detalhes. Sabemos que estudou no Colégio da Quinta Carmita em Benfica; realizou os seus estudos secundários em cursos preparatórios, para prestar exame no Colégio Paes de Carvalho. Posteriormente, cursou a Escola Politécnica do Rio de Janeiro, e nos EUA cursou Atuária e Estatística. De volta ao Pará, teve uma longa carreira no magistério, como professor em várias escolas da região, tais como Paes de Carvalho, Gentil Bittencourt, etc. Devido ao seu grande profissionalismo, se tornou membro da Academia Paraense de Letras (APL); também foi Secretário Geral da Comissão Paraense de Folclore; sócio fundador do Instituto de Antropologia e Etnologia do Pará; sócio correspondente do Instituto Arqueológico e Geográfico de Pernambuco, entre outros.

Durante a sua carreira, publicou alguma obras, na grande maioria, relacionadas com o folclore e as lendas da região amazônica, tais como “: Advinhas e Lendas Amazônicas” (1943); “Folclore Amazônico – Lendas” (1951), “Folclore Amazônico – Sentenças populares e advinhas” (1965). 1

O autor faleceu em 06 de julho de 1965, na capital paraense, deixando nove filhos. No ano de 1987, a então FCPTN (Fundação Cultural do Pará Tancredo Neves) realizou uma homenagem ao autor, através de uma exposição a respeito do seu centenário de nascimento (19/10 a 31/10/1987).

A sua primeira obra publicada foi: “Lendas Amazônicas, colligidas por José Coutinho de Oliveira”, de 1916. Foi editada no Pará pela Livraria Clássica, de J. B. dos Santos. A obra visava comemorar o tricentenário da Fundação da Cidade de Belém do Pará (1616-1916) realizado naquele ano. E, nada melhor, do que fazê-lo destacando as lendas da região, como forma de valorizar a nossa cultura.

Foto n.º 2. Folha de rosto da obra, com o nome de José Coutinho de Oliveira.

Na introdução desta, o autor destacava a saudade, já naquela época, dos “nossos cantos, nossas danças, nossas lendas”, que estavam ficando restritas ao interior da região, enquanto que a cultura europeia avançava sobre as metrópoles brasileiras e paraense. Coutinho reclamava que muitos no Brasil e na região amazônica procuravam inspiração nas “lendas do oriente” ou da Europa, sendo que para ele, possuíamos o que ele denominou de “filão de inegualavel riqueza”.

Foto n.º 3. A indicação da “Livraria Clássica”, de J. B. dos Santos, na parte de trás da capa.

A obra possui 143 páginas de texto, acrescida de um índice no final da mesma. No total, o livro apresenta 31 “estórias”, contendo as lendas da região amazônica, algumas bem icônicas do nosso repertório, tais como as do boto, a do curupira, etc.

Foto n.º4. O índice da obra e as lendas nela retratadas.

Na sua introdução, que se extende até a página 17, nos é apresentada a definição de “lenda”, e o autor discorre sobre as suas características principais. Comenta sobre as semelhanças entre as lendas amazônicas e as de outras culturas, como as norte-americanas, europeias, etc.

Sobre o material utilizado na composição da sua obra, tratam-se de lendas pesquisadas e publicadas por vários autores nacionais, paraenses, e até estrangeiros, tais como: Ignácio Moura, Couto de Magalhães, Affonso Arinos, Henri Coudreau, J. Barbosa Rodrigues, José Veríssimo, cônego Francisco Bernardino de Souza, conde de Stradelli, Dr. Hosannah de Oliveira, e o professor Paulino de Brito.

A linguagem da obra reflete a época em que foi escrita, tendo uma escrita por vezes muito rebuscada. A ortografia, ainda é a padrão dos finais do Império e inícios da República brasileira, com letras dobradas e palavras sem acentuação gráfica.

Sobre as lendas apresentadas na obra, algumas ainda hoje são contadas no Pará e região amazônica em geral, com pouca ou nenhuma alteração, tais como a das “Amazonas”, do “muiraquitã”, do “curupira”, da “matinta-pereira”, da “Iara”, do “boto”, da “cobra grande”, etc. Outras lendas, no entanto, parecem ter desaparecido para o quase esquecimento, tais como a lenda do “uacauan”, do “xincuan”, o do “japiim”, etc.

Foto n.º5. A lenda das Amazonas, presente na obra.

As “Lendas Amazônicas”, infelizmente, não apresentam gravuras ou desenhos das figuras mitológicas abordadas na obra, etc.

E sobre os textos, estes possuem um tamanho desigual, sendo que uns são mais longos e outros bem mais curtos. No entanto, são bem interessantes no que diz respeito aos assuntos abordados. Vale a pena destacar que, é uma das primeiras obras que faz referência ao consumo do tacacá na nossa região, no conto “O curupira e o caçador”.

Foto n.º6. A lenda da matinta-pereira.

Foto n.º7. A lenda do curupira.

Para quem quiser conhecer a obra “Lendas Amazônicas” de José Coutinho de Oliveira, esta encontra-se no acervo da Biblioteca Pública Arthur Vianna, da FCP (Fundação Cultural do Pará), no site www.fcp.pa.gov.br, na página: Obras Raras – Acervo Digital/ Livros.