A Vida de Carlos Gomes

168 !TALA GOMES VAZ DE CARVALHO Foi no periodo entre o abandono do sitio de Maggianico, a morte de minha Mãe, em janeiro de 1889, e minha primeira vinda ao Brasil, em julho do mesmo anno, que meu Pae completou a partitura do "ESCRAVO", eu era então muito creança para ter podido fixar na memoria todas as exterioridades do genio em plena gestação, com aquellas originalida– des que lhe deveriam ser peculiares. Minhas impressões do "ESCRAVO" fundem-se com as do trabalho febril do "CONDOR" e do "COLOMBO", que conservo muito mais vi– vas. Meu Pae costumava dizer que precisava inventar um apparelho qualquer para regis~ tar as inspirações ininterruptas, que lhe en– chiam o cerebro, e que perdia, pela impossibi– lidade material de notal-as acto continuo no caderninho, que geralmente levava no bolso. Dir-se-ia que já ansiava com a previsão dos modernos apparelhos gravadores de sons! Lembro-me de eomo observava e notava todos os ruídos da natureza, o canto dos pas– saros, e as toadas populares. Os ruidos urba– nos e o rugido do mar, que traduzia na orches– tra com tympanos e contrabaixos . Quélndo passou a ultima vez por Lisbôa, já muito doen– te, notára o canto das mulheres de Ovar, que vendem peixe, num pedaço de papel onde

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