Vitória Régia - Março 1936
VICTORIA REGI/\ 27 í'omo é bela, na floresta, a arvote s!"culat enramarla de parasitas flori– das e lia.nns pendentes! Como é bala ninda no descamparlo, ao sol do meio (lia. a a!·vore protectorn ! E cvmo ela. a c,•11a, poetica e m:insa, no viso do mo1 t·o, Já, sosinha dando adeus ao \' i,,j an t e! E ú beira do rio de bru– '.'OS s obre a corrnnte, como é bom ~Pnta1·-se {t sua sombl'a 1:, sonhar a musica das aguas! A' bei!'a dos tu– ,1,ulos, é bela, ainda assim, a ar– v ore, mas é triste... Nas avenidas luxuosas da cidade, nos parques ruid')sos, cabe á arvore a mesma missão de sempre: a de <lar isombra, verdo1·, encanto e poe- ia. Imitemos o exemplo da ar\'ore, cre ..mç:is e jovens. Sejamos nteis á ~-....-'i,;,i\ patria e á humanidade, em 91101· lugar que \'ivamos, em fquer missão que nos cumpra ,,tel'. gorn <JUC vos falei, jovens cole-· J?:ts, creanças, arvores pe<Jtrnninas, ai11cla, deixao-mt:J qu1:, fale tambem ao vegetal mimoso que transportá– mos para o nosso jardim. E' ·um ser irracional, insensível, dizem; mas eu amo tanto as arvores, tanto me acho bem á, sombra de uma ar– Yore, que, nesta occasião não posso deixar de dizer, a elas todas rep!'e– sentadas nl,,)ste arbusto, quanto me falam á alma esses vegetaes mages– tosos quo esperam a chuva do céo e os orvalhos da noite... Arvore amiga ! Acabamos de plantai·-te no chão de nossa propriedade, nesta manhã de primavei-a, 'para que tuas raízes se entL·anh em no solo, para que teu caule se ole\·e até ,'is nuvens, o os teus ramos vereies esitntlam seus hra<:os lCt em cima, bem . alto. E's moça ail1(la, (•s criança, arvore ami– ga. E é por isso que nesse dia cla– ro e a:wlado de tu:i chegada aqui, te Yês rodeada de jovens e de cre- anças. Vimos assistir á tua planta– ção nesse recanto ameno do nosso colegio e vimos aprender contig-o a, lições da esperança ouvindo ~ tu 1. voz muda e eloquente atl'avéz clJ c;cio harmonioso das folhas tenras de tua coma osculada pela bris.a. Vimos tambem fal:u-te, ó arvor9 amiga, e dizer-te porque te damos este nome. De onde pl'ovéns, não sabemos. Mas parece-nos ouvir-te cantar sau– dades da floresta sAcular que o Ama– zonas banha. Yieste de algum cas– tanheiro milllnario, rei das selvas; eras fr~1to, então suspenso, muito alto, a um galho vigoroso. Amadu– receu o fruto, secon; e o vento, aba– lando em noite bravia o cimo da arvore gigante lançou ao chão a se– mente. Veio o homem e recolheu-te. Viajaste rio abaixo, embrulhada ep1 tua couraça impenetravel, ao ab!'i– go do vento, da chuva e das . ondas . Trazias, nas dobras ele tua concha, a historia de teu passado, o J>Oema selvagem das trib us que repousaram á sombrn de t.eu velho ancestral, o rumor da floresta que foi teu b_erço, o estrondo da cachoeira que ,tescesté em disparada nas igarités dos remei– ros, os rugié:os das feras que se acoitam ao tl'Onco do velho casta– nheiro milenario, e tambem a mei· guice toda das aragens perfumadas dos orvalhos, das fragrancias raras, dos cantos dos papagaios e das ara– ras, dos sabiás e tios japiins, colo– nia aligern qufl volteava em torno do ramo donde pondias. Quanto cas– tor on cotia al'isca não desejou tua amendoa saborosa l •.. !\las ten des– tino ern outro. Devias nasco1· um ,lia o vir t1·aze1· á cir!ade o poema da selva Amazonica. Devias vir en– sombrar com o doce} da tua fronde um recanto deste colegio e atrair para os teus ramos uma colonia in– toirn de festivos cantadores errantes qne viajam pelo azul. E hoje aqui
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