Vitória Régia - Março 1936
VICTORifl REGI/\ 19 pre<lominante duma nota eternece– <loramente humana. !'r,1sador de imaginação soberba e fascinante, a , ,ia pena emotiva, multiplica-se, nnm , 1ilagre <le cerebraçã,o, em historias t11(antis, contos, critica, poesia, co- 11 n tarios políticos e literarios, cro- 1icas, auto-biografia, etc. Ningnem t·u1110 êle te,·e a noção clara e per– f, it a da harmonia, da simplicidarle, d;1 exatidão. Humberto era dmples mas não pobre. Possuia ;;, •simpli– cidade distinçãoJ e nunca a •sim– plicidade pobreza • dos mediocreE, dos vulga1·es. O conto, 01 iginal, tem um sabor ele realidade, uma podRrosa for~·a da hcleim e de imaginação, extraordi– narlns. .A cronka, psicologica, profunda– monte humana e humanamente pro– funtla, é, pnra mim, a sua melhor e sua mais bela especialidade litt:>1·a– Q11an<lo não tem o travo amargo da ,·ida, tem a doçura risonha da ilu no. Por vezes é tetrico, esc:i.brnso, 11111 eu vejo nisso, um fundo emi– rent •mr>nte moral. do SPn rf'alis1110 1i1osofko. A sna critica é um di.scor– re1· agradavAI e sutil. Não ofende, não ,·ergasta, não dcstroi. Critico não ha mais justo. A sna bondade não encontra defeitos 0111 ninguem e se os encontra a boca não os re– vela. E, assim Elle passa nos seus tres volumes: distl'ibuindo elo5 ivs, prodigalisando alegrias, vaticinando tl'inmfos. As suas Poesias Completas reve– lam a poeira de ouro da sua lira. irmã da de Bilac, Raymundo Corrêa e Alberto <le Üli'1'eira. Peregrino pela forma, rico pela rima e sedutor pelo sentinrnnto que emprc~sta a seus versos, esse mane– jador incomparavel de metaforas e de antiteses, esse encantador namo– nulo do Belo, refle!e, nos gemidos da sua lirn, a Inquietação, a Duvida e o Ceticismo que, infelizmente, des- graçam os homens. Pena que ele não. se definisse melho1· diante dos pl'O– b!0mas filosoficos, religiosos e soci– ais, e é pena que não houvesse quem o esclarecesse da Verdade, libertan– do-o, assim, da Duvida que o ator– mentava. A sua auto-biografia é a corôa de louro na cabe,;a do heroi. Ele mos– trou, ao mundo e aos homens, as cicatrizes da sua alma e as feridas do seu coração, desdenhando os ju:– zes mesquinhos e os julgadorns su– perficiais. Ele, num desassombro hf'm Sf'U, num espetaculo incomum de coragem e de altivez, contou, mostrou, des– cobdu toda a sua vida, á maneira de Goothe, de Jean Jacques e de S. Agostinho. «Os vícios que a afeiam-•diz no profa.cio de Memorias-os erros que a singularizam e que eu proclamo com inteira tranquilidade dalma, os rochedos, em suma, em que bati, mrsmo esses me foram proveitosos, ~ s!-' ·!o-ão, talvez,nos que melorem • . Desconheço sua literatura de Bo– cacio . Porém, para melhor se aqui– latar do homem-artista, nec·essario se torna que a busquemos como tes– temunho, documento do botão que – se fez flôr, do homem que se fez genio. Humberto não teve a aumentar– lhe o infortunio, a tristeza e · a re– volta, surda e inconsequente de Coe– lho Neto, esquecido e abandonado, ao presenciar o menospreso a su:\ obra e ao seu nome. Humberto não conheceu o •horror da decadencia. •. Morreu em pleno fastígio de seu ce– rebro. Na verdade, nestes ultimos tempos, Coelho Neto, decaiu muito, literariamente, em sua personalidade. Distanciados no tempo, emparelha– ram na Glol'ia, quando o mais velho já se cobl'ia com o véu do crepus– culo mental. Humberto não escrevia,
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