Vitória Régia - Janeiro 1932

'1 ram as officinas onde se acendra 'J ouro do caracter. Tal se não dá felizmente comvosco que tivestes a ventura de passar por um collegio onde se ensina o catecismo. Meus amiguinhos, trouxestes-me para aqui ? Pois, ouvi ainda uma adver– tencia. Lá fora, no torvelinho dos ne– gocios, no revolutear das ambições, no vae-vern rumoroso dos mercados, não olvideis j-tmais aquella meia hora de palestra que tínheis quotidianamente com os vossos mestres, sobre algo mais excelso e necessarió que quantas lições de linguas, de artes, de scie,1cias, vi– estes buscar sob este teclo. Receio de que não estejaes conten– tes cornmi go. Esperaveis, talvez, um discurso academico, e eu estou a dar· V03 conselhos. . Camões, o grande vate dos Luzia– das, chegmdo embora cançado e com a voz enrouquecida ao X canto de sua a<;s 1rnbrosa epopé~, tambem deu con– se, hns. E de.u -os a um rei. .. áquelle rei a quem dedicava o seu trabalho... aquellc! trabalho que elle me,mo enal– teceu, pateri teando sem fingiJa modes– tia as proprias qualidades do autor. E di,se : « Nem me falt a na vida honesto estudo, • Com longa experienc fa misturado , « Nem engenho, que aqui vereis presente, « Cousas que juntas se acham raramente •· E vós, mem ami g uinhos, não ides porventura erguer tambem um monu– ment o g randioso, posto que de ge11ero differente daquell e pad rão immorre– doiro das ld tras luzitanas ? Vej amos de , tarte os tl em.entos de que dispondes para a rea li zação de empresa tamanha. Tendes ja' o honesto estudo'? Sim, es te realisaste-lo aqui sob a . di recção de professores compe tentes e desvelados. 19 E a longa experiencia ? Bem. Esta é la' fóra, na vida pra– tica que o tempo vol-a dara': Mas o engenho ? Ah ! O que tendes agora em mente nem se escreve na oitava rima, nem cabe no metro dos decasyllabos, por– que é o vosso ideal de moços, o poema do vosso futuro . Precisaes de alguma cousa mais alta que o engenho? Dizei.,me : depois desta despedida que nos fizestes, para onde parti reis ? Para a dura realidade da vida, isto é, para o mundo. E que cousa é o mundo ? Respondo-vos eu mesmo : -O mundo são desenganos, amargores, traições! · Nada disto, porem, vos ha de en– tibiar-; •nada disto vos fará descrer da victoria, por que levaes dentro de vós a chamma da Fé Trabllhae. Trabalhae indefessamente, certoc; de que vosso esforço só fructi– ficará com as bençãos do Céo. E nesta ultima palavra minha, resoe ainda a voz do poeta immortal : • Quem poderá do mal apparelhado, « Li vrar-se sem perigo sabiamente, « Se lá de cima a Guarda Soberana « Não acudir á fraca força humana ? •· A aurora vae 1·aiando ! Os passarinhos já despe1·taram e, em j uhUo intenso, go1·geiam em seus ninhos, acariciados pelas frescas au- 1·as da manhã 1·izonha ! ... Amanhece ! O zephy1·0 que passa, subtil e bran– damente, conduz em si ·a magia, o odôr inebriantP. das verdes carnpinas ... No horizonte, sw·ge Apollo, espm·– gindo na Natu,reza, sws fúlgidos re-

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