Vitória Régia - Janeiro 1932

10 sublimemente, adorna-se com seus en– feites mais naturaes para receber a imagem do seu Rei, que será d'ora avante o receptaculo das caricias dos ventos mais bonançosos, rias brisas mais plenas de felicidade para o nosso pa iz. E esta solemnidade incomparavel, cheia da graça e da magestade do culto catholico, é um testimunho po– sitivo e insuspeito da ·pujança da fé dos brasileiros. Somos catholicos e a nossa crença tradiccional, ardente, sincera e mesmo instrucciva, não véla o no950 desen– vol vimento, não aberra da nossa razão. Eis ahi, porque eu, como brasileiro e como christão, venho vos transpor– tar pelo pensamento, venho vos ap– proxi mar por intenção, aos nossos patrícios do sul, que hoje vibram de enthusiasmo e de fé. Eis ahi• porque vamos repetir hoje, dian te da imagem de Christo Rei que elevamos, não no alto do Corcovado, mas na fachada do nosso recreio,– um acto de fé, uma consatrração sin– gela, enthronizando em nosso intimo a imagem da Redempção, para que ella continue, ahi como no Corcovado, a dominar com absoluta e dulcissima tyrannia, a nossa ~ntelligencia, a nossa vontade e o nosso coração. li Era uma linda tarde de Maio. O astro rei se inclinava no occaso, deitando á terra as suas ultimas resteas de luz e dando ao nosso ser uma recordação de al– viçareiras utopias, provocadas pela hora crepuscular. O Angelus sentimental e grandioso, vinha se approximando, para crear em nossa imaginação um romance lindo e e ;ocativo, exaltando a ,nossa alma em purissimos pen- samentos. A natureza, toda envolta em urna floração rosea, enternecia o mais insensivel e fazia curvar os joelhos ao mais herege. Embevecido e tomado nostal– gicamente pelas ancias daqLtella tarde, que só conseguiria descre– vei-a a mais privilegiada intelli– gencia, puz-me a admirar os tran– zeuntes que, naquella hora, de regresso au lar, caminhavam ale– gremente. Entre as demais pes– soas, distingui uma velhinha, al– quebrada e enfraquecida, que ao amparo de um cajado, esmolava a um e a outro. Vi tambem que os seus cabellos grisalhos eram banhados pelos suavissimos raios do sol, e que, no seu rosto, bai– lava um sorriso terno e resignado. O seu physico deixava transpa– recer grande soffrimento. Exan– gue, exhausta, coberta de andra– jos, caminhava ao léo da vida, arrastando os pés mal resguar– dados por uns velhos sapatos. Eu percebia em mim uma emo– ção indefinivel, um sentimento que eu não sabia explicar, ao ver alli, a pobre velha. De subito tive uma explicação clara do que se passava, por um incidente sum– mamente doloroso, profundamente triste. E' que a ve lhinha estendera a dextra tremu la a um dos tran..: zeuntes, e este, indifferente, não

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