Revista do Ensino - v.1, n.2, 15 out 1911

98 REVISTA DO ENSINO Assim é que se desvanece, na mesma obra : e mesmo trecho, de baver « desde 1883 denun'ciado e verberado este gal- licismo no Diario de Portugal ». . Não -tivesse outros serviços prestados á boa lin guagem ... Para certos vernaculistas o gallicismo é phantasma que os apavora, dormindo, acordados, em toda parte ... Na expressão o cholera não ha sombra de gallicismo. Se, em francez, a palavra colera sempre fos se do ge– nero masculimo, o Sr. Oandido de Figueiredo podia ter al– guma razão, mas tal não ha. Dá-se em francez o ~esmo que em portuguez: irritação, ira , é colere, sem h e do genero feminino; mal do Ganges é ch6lera, com h, terminando em a e do genero masculino. De sorte que, se o cholera fosse um gallicismo, não ha– veria razão ·para que o não fosse tambem l1: cale1·a. Além d'isso, o facto não se observa só no francez e no portuguez, mas tambem em hespanhol e outras línguas ro– ma nicas. O que desnorteou o provecto philologo, é phenomeno linguístico muito con11mum, determinado por uma lei que se chama-do contagio . Quando dois termos andam associados, exprimindo um o genero, outro a especie, acontece com fre– quencia desaparecer o que expr· ne o genero, ficando o que exprime a especie a desempenhar as funcções de ambos. Todos sabem que madeira é palavra feminina, tanto siunificando páo, como a ill_ia cl'este nome. Quando, porém, di– ze0mos-o Macleira ,-concorda o artigo com a palavra vinho, que foi suppressa, e não com o termo subsistente . A denominação da molestia, ou escorrimento como se exprime o mestre, não é simplesmente cholera, mas cholera morbus . E dizer o colera morbus equivale a diz er o raorbus cholera, o que é regulari~simo, sendo morbus do genero mas– culino. A cholera morbus é o que não se justificaria. Poderia, quando mui.to , applicar-se a uma irritação, ira, sanha, que fosse morbida, nunca porém, a um mal que se caracterisa por prostração, coma, pulso miseravel etc . etc. . Em outros termos: na expressão chole1·a rnorbus o ge– nero é espresso por morbus e a especie por chole1·a. Por isso eliminou- se mo1·bus, mas o artigo continúa a concordar com 0 nome suppresso. Sustentar o contrario é dar murro em faca de ponta. A circumstancia, citada pelo Sr. Candido de Figueiredo. de medicos eminentes terem preferido di7. er a cholera morbus· s6 prov3: que elles entendiam mais de mezinhas que d~ grammatica.· . _. Não é por ser latoeiro que a gente fica autorisado a decidir se folha-de-flandres é graphia preferivel a folha de Flandres. ·.·

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