Revista commercial do Pará Junho - 1919

24 REVISTA COMMERCIAL DO PARÁ O ESTADO do PARÁ Ü accumulo de factos e erros que não vale a pena mencionar têm levado o Pará a um estado de difficuldades que, sem uma resolução firme de enveredar por outro caminho, e uma serie .de medidas correlatas, não sahiremos cedo desta afflictiva situação. Não dizemos que o Estado está decadente ; mas, estacionou, e estacionar, para um Estado, é retrogradar. As suas fontes de receitas estagnaram e as suas necessidades crescem. O peior é que essas mesmas fontes de receitas tendem a decrescer pelo uso e depreciação de seu material productivo. A E. F. B. está em misero estado. Sem grande somma, que não pode ser menor de dois mil contos, não se a reconstituirá nem -poderá manter a sua renda actual e, consequentemente, fará retrogradar a producção da zona Bragantina. O abastecimento de aguas tambem precisa de reformas e melhoramentos, sem as quaes tem que decahir e depreciar-se. O Curro está requerendo melhoramentos para poder manter as rendas actuaes. Fóra essas tres fontes de rendas, o que resta ? A exporta– ção, que é de cerca de 1 /a de toda a receita. Mas, esta justamente é que mais tem soffrido e é para quem não tem havido remedia na pharmacopea estadoal. A persistir o systhema de só arrecadar impostos e_pagar o fun ccionalismo e as dividas no extrangeiro - mais ou menos em dia - deixando ruir tudo quanto se tinha feito até agora e au– gmentando compromissos futuros, é empurrar-nos na beira de um abysmo que já se abrio aos nossos pés, onde uns arrastarão os outros no extortor da agonia sob contracções de indignação e desespero, onde reciprocamente se morderão corno conde– mnados ás torturas do inferno de Dante. Para os grandes males, grandes remedias. Quando no go– verno Montenegro se desenhou um quadro identico nos destinos do Pará, S. Ex.a disse que precisava cortar cerce na despeza. Disse-o e fez. Após suspensão de pagamentos no thezouro, reduziu a Brigada que era de l.lQO praças para 400, assim como as etapas destas; extinguio o Instituto de Musica; suprimia em– pregados até da sua secretaria e do seu gabinete; não houve mais licenciados com subsídios; as tabellas de todos os estabe– lecimentos do Estado foram reduzidas; acabou com as bandas de musica; emfim, cortou cerca de 3.000 contos nas despezas e equillibrou o orçamento. Depois então, mostrou que precisava– mos fomentar novas fontes de receita e tratou de obter di– nheiro • . o que não era difficil vist~ ter provado que sabia administrar e não queria dinheiro para pagar dividas e atrazados. Não batemos palmas á sua nefasta obra política, de quem sempre fomos adversos, e abertamente causticamol-a. Hoje vemos, sob o passado, que delle foi tão somente a responsabilidade de actos que outros praticaram e elle encam– pou porque devia. _Não se pode contrariar interesses sem desgostar muita gente, ;esso mesmo quem não affaga a popularidade, se predispõe a olver problemas dessa natureza. Ninguem foi mais odeado no Rio que Pereira Passos que celebrisou-se pelas suas arbitrariedades. Hoje para este s~ vol– tam com admiração quantos conhecem o Rio de Janeiro. Murtinho e Campos Salles, os maiores benemeritos desta Republica, que já uma vez a livraram da bancarrota e deixaram– lhe com que cobrir a nudez e se engrinaldar, e enriquecer, sahi– ram do governo apedrejados, injuriados .. . O remedio temos. Mas, é caustico e cirurgico ... Teremos de amputar membros do grande corpo. Com isso não ficará o Estado aleijado, porque são excres– cencia a eliminar •.. Mas, só o fará um cirurgião que não pense na dôr que vae com isso causar. E, essa excrescencia augmenta desmedidamente, parasitaria– mente, tendendo a tornar-se maior do que o corpo que a ali– menta; e se não a eliminarem, só morrerá, ~ó desapparecerá, depois que haja desapparecido a arvore que a alimenta. O principal problema ahi é de organisação, e essa não pode ser feita isoladamente pelo governo, com violencia ou sem ellas, e só por bachareis. Os E. U. A., agora mesmo, ao entrarem na guerra, mobilisaram todos os homens de iniciativa comprovada, chamando a direcçãÓ dos diversos departamentos da viação, construcções navaes, distri– buição de munições de bocca e de guerra, os • one dollar's men • porque ganhavam um dollar por anno, visto não poder o governo acceitar de graça os serviços dos grandes millionarios que não queriam ser confundidos com um empregado publico. Dada a feição tomada hoje pelo mundo moderno, só o syn– dicalismo e o cooperativismo podem prestar, mais facilmente, esse serviço aos governos, alliando-os aos Bancos, ás industrias, aos productores em geral, grupados por sua propria iniciativa sob uma direcção com quem possam os poderes publicos se entender. A concessão de terras e distribuição das mesmas por essas sociedades, sob obrigações convencionaes estabelecidas em con– tractos que determinem a maneira de distribuição, povoamento e cultivo, seria o meio mais seguro de algo fazer em proveito do Estado, equivalendo a muitos departamentos de immigração e colonisação autonomos e sem burocracia nem responsabilidade e despezas para o governo, alem da liberdade de acção e fo– mento da iniciativa que cada um de si estimularia. Mister se torna descarregar os impostos e sobretudo os direitos de exportação até a sua abolição comp.leta e para isso se requer um orçamento de despezas capaz de viver dentro de uma receita por emquanto menor. Mas, sobretudo se requer garantias de direitos e justiça que se não faz sem reformar o que no interior do Estado se chama de politica. - Ainda mesmo que seja preciso reformar a constituição do Estado, é mister a intervenção deste na organisação dos muni– cípios pondo-os sob a direcção de homens de responsabilidade moral, capazes de fazer a obra que se precisa fazer. Para isso é mister buscar homens de capacidade adminis– trativa comprovada, de probidade moral recommendavel e que não sejam da política local. Essa obra só os syndicatos profissionaes podem fazer, ::,ois, não se a poderá adcjíar por muito tempo .. . Se não partir dos governos, com paz e amor, ella virá mais tarde revolucionariamente a destruir tudo quanto se houver feito, antes do trabalho de reconstrucção. E porque não havemos de fazei-a como se fez a Republica, se fatalmente ella virá e ha de ser feita? Entregue-se a direcção de cada classe á sua propria inicia– tiva, superintendendo o governo a direcção suprema, e a agri– cultura, a pecuaria, o industrialismo, o commercio, os Bancos, por todos ell es organisados, farão o resto, promovendo a coloni– s_a~ão parcellada, creando a pequena propriedade, pelo coopera– tiv1smo, pelo syndicalismo, que melhor synthetisa os idéaes do mundo que surge e vae crescer. O fomento da navegação interior e exterior, a construcção de estradas de ferro e de rodagem, devem ser concedidas com f~vo_r~s tentador~s á e~prezas _que possam levar das margens r1bemnhas os raiiways mternados pelo sertão a colonisação e o cultivo do solo. ' Para isso trabalharão os homens de negocios que o governo attrahirá a si. ' Disseminar o ensino agrícola e profissional, sem perda de tempo, por toda parte, desde as escolas primarias que terão os seus campos de demonstrações praticas, onde quer que haja uma

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