Revista commercial do Pará julho - 1918
1.º DE JULHO DE 1918 - - · 5 A BORRACHA Só por um dever de officio vamos nos occupar hoje do pro– blema da borracha, tão debatido e • estudado •, on'de nada mais, talvez, se tenha a dizer, mas, onde está tudo ainda por. fazer. Não se sabe até hoje quanto nos custa um kilo da noss:i « hévea •; por quanto poderíamos vendei-a, sem prejuízo; quantos pés de seringueiras possuímos em exploração, nem quantos po– deríamos ainda explorar, com augmento de numero de extracto– res; qual a área occupada com essa cultura, ne:n a mane.ira de intensival-a e em que proporção. Dizemos, · ou • dizem outros •, que a nossa • hévea • é a melhor; a que dá melhor producto. Se perguntarmos - por– que - ninguem sabe ... Aventa-se a idéa de melhorar o seu fabrico, pela pureza do leite ou pelo processo Cerqueira Pinto. 1 Quem nos póde affirmar que este processo mantem inte– ·gralmente as qualidades de superioridade que attribuem ao nosso principal producto? Uns dizem-nos que a borracha preparada por esse pro::esso vem a apod recer pouco depois. Outros as– severam que, ao contrario, a borracha preparada pelo proces, o C. Pinto se conserva em perfeito estado, tendo já annos de pre– parada. Um productor de borracha e antigo cultor nos disse que experimentou o processo C. Pinto • e não se deu bem •. Dis– se-nos mais que, mesmo a borracha, como preparamos, exposta ao contacto permanente do ar, do calor, do tempo, resecca, apo– drece, perdendo a sua ductibilidade, tornando-se quebradiça, absolutamente sem elasticidade. '. Dahi, diz elle, o motivo das • pelles • que adoptaITJOS, con– stituindo a camada de fóra - um involucro impermeavel que con– serva as camadas interiores com a devida humidade e perma– nentemente guarda, sem perda, a sua perfeita elasticidade ; pois, é sabido que, - quanto mais fresca mais el astica ella é. Parece ser isso verdade, porque, a borracha mais elastica é a das Ilhas, e é a que mais fresca vem ao mercado. Parece ainda ser isso verdade, porque a camada de fóra, das pelles de borracha do sertão; - apodrece, perdendo a ' sua elasticidade. O Snr. MONTEIRO DA COSTA, do Club da Seringueira de Ma– náos, diz que nenhuma fórmula chimica é capaz de dar a bor– racha as propriedades dé elasticidade e durabilidade qu e lhe dá a defumação. Explicando que o producto de plantação, scien– tificamente preparado, contem 1 O/o de humidade, emquanto o producto indigena contem 20 O/o de agua ; lembra que, emvez de o nosso producto soffrer, porisso, uma depreciação de 19 O/o. os preços da nossa borracha são mais al tos que os daquella em 30 O/o , o que demonstra pelas cotações nos mercado s con– sumidores ; com que, julga provado que a nossa vale mais 50 O/o que a de plantação. « Qualquer mistura chimica, diz elle, entre as mãos inexperientes dos seringueiros, daria resultados nega– tivos, porque, - em vez de fabricarem borracha de primeira qua– lidade, apenas conseguiriam mal preparai-a. Taes processos só para laboratorios, com prensamento e estufas para seccagem. Para isso seria conveniente o leite em estado liquido, applican– do-se-lhe a aldelyde fórmica ou outro ingrediente que de alguma fórma já lhe altera as qu alid ades nativas •. Demais • as distan– cias em qu~ é o leite colhido até chegar ao barracão, onde_seria o laboratono, a não ser que houvesse um laboratorio para cada seringueiro, daria togar ao coagulo antes do preparo •· • Au deixar de ser feita a nossa borracha pela maneira e fórma que se a faz, desappareceria o nosso « typo·• e com ell e a supremacia em qualidade que ainda mantemos •. Assim sendo, é a maneira de preparar, de acondicionar a nossa borracha, que a toma um producto superior permitte que a levemos ao mercado consumidor em prefeito estado de frescura e inalterabilidade, constituindo isso, - a sua superio- ~~~ 1 A questão de produzir barato, é outro problema de alta re– levancia para nós, o que se poderia conseguir melhorando as_ condições de vida do prochtctor e pela eliminação de despesas, desde a facilidad e de condução ao nosso mercado, até aos mer– cados manufactores ; pela sua coll ocação, directamente, nos mer– cados consumidores, eliminando os int nn ediarios, o que se con– seguiria fa cilmente, por meio de um serviço de organisação syn– dicada, que teria ainda a vantagem de ·)s compradores tratarem sómente com a directoria, como se fa ; com as Companhias que trabalham no Oriente. Essa associaçãL poderia preparar techni– camente o productor, desenvolver o pl:::'ltio e se encarregar, com vantagem, da organisação fi nanceira _da indu stria, dand o assis- . tencia ao seringueiro e encarregando-:e da sua collocação em melhores condições. Que poderemos dizer cÍos mercados consumidores? Que 6e tem feito até hoj e c~1 beneficio dos seringueiros, da sua col– locação, da sua saud e, 3eu transporte, sua permanencia nos se– ringaes? Qual o am aro e garantias que se lhes offerece, a assisíc1 •'ia medica, o conforto, as vantagens que se lhes pro– porei-~ 1 ? O immigrante no ~ui, tem a passagem, a estadi~ nas ilhas das flo res, a conducçao para o nucleo, onde se lhe da casa, cern entes, um loie de terreno e din heiro para começar a trabalhar ; e quando apresenta o producto para ser exportado, ou tem o carro e os animaes para trazei-o ao mercado, ou, a estrada de ferro lhe p::issa na port::i da ru a. · Como exigir que os seringueiros pla ntem e colham para a sua propria manutenção, se delles não são as terras, se não lhos estimulam para isso e, ord inariamente, é ell e • um homem só • , sem familia, sem filhos, que se embrenha isolado por ahi alem em busca de um producto que não chega a ser • col hido • , mas, extrahido penosamenté da natureza selvagem, quando elle só– zinho tem que fazer todo o serviço, desde a cosinha até a co– lheita das sementes ou lenha para a defumação, todas as tardes, ou todas as noites, quando chega a casa do afanoso serviço, cauçado e faminto? E esse homem não pode deixar de ir para Ili sózinho porque paga a sua custa todas as despesas, e se a ' 1 h . fosse com mulher e cinco filhos , por exemp o, e egana nos se- ringaes devendo qu asi dez contos de réis, .sem ter siquer onde se abrigar com os seus. E esse pobre diabo, se adoece .. . é um homem perdido: _ não tem quem o trate, nt:m quem o substitua na l~buta_ pela vida; não pode pagar o que deve e comprou para a subs1sten- . . os generos que tão caro lhes custara e armazenou para o c1a ' e . b Ih d t . seu rancho na semana ou na quinzena de tra_ a o, e enorou-se li t de comer estragado ou deitai-o fora e comprar outro, e e e o em . . . , _ 0 que importa em um augmento de d1v1da e, qmça, no seu d . d "t ante o patrão que não o qu er doe nte . . . . 1scre I o • , 1 E a conducção do producto, como se o fa_z ? Penosame~te, t , barracão do patrão, em • costado de ammal •, com mmtos a e O ' d d ºffº ·1 dias de viagém, ou por • varadouros • e ~~ranas e 1 1c1 a~- cesso, com grandes despesas, com dis?erdd•~•oh ~e tempo, de di– nheiro, de energia ; ou _ainda po~ muito m e1ro, nos vapores que o trazem para Manaos e Belem. .· . Não é melhor a condição dos senngue1ros_ das Ilha~, que · · f · tos e nús porque o producto nao lhes da para ahi vivem amm , . . t . e esses teem alguns mulher e filhos, vivem comer e ves 1r, e s , , b d lha em giráo sobre agua, sem terras para numa arraca e pa ' 1 es ecie ou criação de qualquer natureza, cultura de qua quer p , . - Ih d d ' a de onde or/Jinanamente, nao se co e il hados, cerca os agu , , um peixe ! Se em 1 es S e encont ra latifun dios, com algumas alguns ogar . . • f lhes estas mm distantes, sem commu- terras para cultura, ,cam·fó do alcance dos seus braço& .e es- . - 1 e portanto e ra mcaçao, ~ng a alli não se pode transportar. forços pois que, par ºd ? Q d 1 ' d º dos me rcados consumi ores ue e les sa- E que 1zer bemos nós ?
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