Revista commercial do Pará Dezembro - 1919
4 REVISTA COMMERCIAL DO PARÁ de borracha, para consumir aq ui o producto que possuem; im– portar em massa o que precisarem para consumo e co11tractarem em blóco qu anto tenham de receber ou ex porta r á frete, com que os terão mais baixos, assim como os seguros, além da elimina– ção dos intermediarias que todos ganham e participam do va lor das mercadorias, ao mesmo passo que, diminuem -os impostos, os alugueis, o num ero de empregados e o proprio labôr, dei– xando que o liquido prod ucto do genero vend ido ou da merca– doria comprada com menor despeza, fique por menor custo. Nem porisso taes medidas impediriam que cada um tivesse o seu pequ eno bureau, e que livremente cada um fizesse o seu ne– gocio separadamente. Desde que o comrn ercio se organisasse em urna só coope– rativa de produc:ção e consumo, ou em duas coo perativas, urna de producção e outra de consumo, só essa · associação importa– ria e exportaria do interior e para o exterior. Assim pois, o ne– gociante de borracha seria um comrnissionista apenas, e bastaria que elle se juntasse a um guarda livros e a um caixeiro recebe– dor de generos e embarcador de mercadorias, para d esempenhar as funcções que hoje se cha111a • um aviador> que nã o vive nos ares, mas, em brazas . . . pois, se não é o preço da borracha é o cambio que o sapéca e tósa . . . Ao estabelecimento da associação seriam levados os pedi– dos do interior e os generos dalli recebidos, e só ell a compra– ria e venderia tudo para os seus associados, prestando-lhes con– tas de vendas escripturadas em c/c aberta a cada, na pro porção do seu credito, do seu concurso, da sua prodncção, das suas remessas. Dessa fór111a, pod eríamos te r o nosso standard, o nosso typo de J.a, 2.a ou 3.a qua lidade de borracha ; faci lmente pode– ríamos firmar, fixar um preço ig ual para todos, com real pro– veito, igualmente para todos, deixa ndo 11111 liquido producto maior, porque as despesas foram 111enores. E o commissionis ta que teve um corpo de empregados me– nor; um alugue l menor; um imposto menor; e menores com– missões a pagar, contenta-se com menos, ganhando mais, talvez. Resta falar do • seringue iro : este em breve seri a lambem um socio da cooperativa, desde que seu lote de terras plantad o e cultivado fosse seu e produzisse para si. Como, porém, a posse desse lote de terras e as suas plantações o induz a ter uma casa, um campo, um pomar, algu ns cherimbabos e mais conforto, não poderá prescindir do commissionista nem do banco que lhe ha de fornecer dinheiro e credito para machinas, semen– tes e mil e uma cousa que a posse de uma propriedade lhe su– gere cada dia. Não haja, porisso, medo de que tal cadeia de negocios ve– nham a aniquilar o commercio. Bem ao contrario, elle será estimulado, crescerá, se desen– volverá em outros moldes com uma base fixa e segura para novos surtos de progresso para esta região. Mas, ao seringueiro é mister ainda alguma cousa: um con– tracto, para garantia reci proca de interesses, uma estadia nos campos de demonstração e pratica de algumas semanas nesses campos, sempre que de sua propria conta se queira localisar nos lotes que lhe forem concedidos onde, vendo, o que se pre– cisa que elle faça e como deve viver nos seus novos domínios, irá plantar seringaes e frucle1ras, creará prados e relvados, am– bicionará a posse de uma machina argricola, de um boi, de um cavallo, de um carneiro, de um porco, de uma gallinha. S,t,emos que mais uma vez nos dirão de phantasista e que ninguem acreditará que isso se possa fazer porque leva tempo e dá trabalho; mas, nem porisso deixaremos de aq ui deixar gra– phado o que nos parece ser a resolução para o cha1111do • proble– ma da borracha . Haverá mesmo cretinos que dirão tudo se faz som t:nte com dinheiro e nos virão perguntar onde elle está . . . Mas, o dinheiro existe na propria cooperação, entre os seus a_ss?c~ados, no seu credito, no seu valor; poic 4ut!, uma tal ins– tituiçao terá um credito tão grande como o valor da solidarie- dade de um blóco que concentra em si a totalidade, quasi, do commercio do Pará, que, sem contar os Bancos, ainda é supe– rior a i 10.000.000, não faltando quem enfrentando com tão avul– tada somma deixe de fornecer-l he creditas de pelo menos i 5.000.000, acolh endo seus saques presurosamente como ouro que de facto fica sendo. Tanto mais hoje que o dinheiro lá fóra está a ncioso para dalli sahi r e esconder-se ... Já ultrapassamos o limite deste edictorial, senão, poderia– mos ainda demonstrar quanto uma tal organisação poderia fazer em prol deste Estado, creando escolas, importando machinismos, <;listribuindo sementes, creando a sua caixa bancaria, ·fundando armazens geraes, attrativos esses a novos capitaes e novas ini– ciativas. L. C. O CAMBIO VERDADEIRAMENTE tormentoso tem sido o cambio para a Amazonia. Repousando toda a sua vida economica num só producto, qu alqu er oscill ação do cambio nella re[lecte direclamente e quan– to maior as differenças se tornam, maiores são os desequilíbrios que por vezes attingem proporção de verdadeiros cataclismos. Se o movim ento é de ascensão, a baixa _des·ses preços em moeda papel é de fazer um Santo perder a cabeça . .. Não tem sido tanto as osci ll ações dos preços nos mercados consumidores, que os marcam a seu talante, a causa primor– dial das chamadas imprevidencias desta região, e a grande cul– pa qu e se lan ça sobre o commercio como um anathema fat í– dico; mas, o cambio; quasi sempre dahi provem o mal tornan– do as crises in evitave is, imprevistas, insuperaveis. Mesmo antes de produzirmos borracha, já os preços dos nossos 'principaes prod uctos soffriam os effeitos do cambio com osci ll ações bru scas, causando crises sobre crises. Toda a vida commercial da Amazonia, desde ha dois se– culos tem sido calam itosa e por successões de crises maiores ou 1~enores, conforme a harmonia dos dois factores: cambio e variação de preços no exterior. De 1863 a 1870, quando ainda produzíamos algodão, os preços variavam de 9$026 a 19$2 15 em média ; o arroz ia de 826 reis a 1$925; o . assuca r de 1$900 a 3$603; o cacáu ele 4$828 a 7$350; a castanha de 3$545 a 6$495; os couros de 90 réis a 4 786; não havendo dentro desses preços, maximos e mínimos, prev isão possível. E se procurarmos a causa principal, veremos que é o camb io. Dahi o desequi líbrio das receitas publicas que, repou san– do em mais de 80 % nos direitos de exportação, veem-se na contin gencia ele se encontrarem assediadas por uma despesa prevista sobre uma receita imprevista que cahe a 50 °10 ou sobe a 100 o/o. O valor da exportação geral que em 1890, com cambio médio de 12 11 2 , era de i 8.162.000, igual a Rs. 156.710 contos; se eleva em 1891 ai 8.742.000, igual a Rs. 131.130 contos com o cambio de J6d, Em 1893, quando o cambio médio era de 11 ½ o valor es– terlino era de i 9.127.000 no total de Rs. 190.476 contos. Ca– hindo em 1894 a i 8.945.000, o cambio de 10 1/32 eleva o seu valor em papel a Rs. 204.457 contos, chegando em 1900 a 338.880 contos rara cahir em 1906 para 150.356 contos, apesar do valor esterlino ser de i 10.181.000. Mas, é que então a mé– dia cambial era de 16 1/•. Como prever e supprir um coeficiente de 340.000 contos com 150.000? Alem disso, as crises trazem o desanimo, o abatimento do commercio e do productor e as colheitas soffrem a depressão relativa, que mais agrava ainda o mal estar geral. •
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