Revista commercial do Pará Dezembro - 1919
26 REVISTA COMMERCIAL DO PARÁ O ESTADO do PARÁ PENOSA se toma esta chronica que bem quizeramos omittir. Mas, cinco annos e meio de vida consagraram-n'a neste togar, e a sua ausencia poderia ser interpretada differentemente do nosso sentir, que traz sobre a nossa cabeça como um labaro sagrado o lemma de • Tudo pelo Pará • Não nos tem faltado, fe,lizmente, bons conselhos, desde o antigo regimem. Espiritos clarividentes que teem presidido os destinos desta região, proclamaram sempre que não havia base segura de pro– gresso na simples possibilidade de colher, onde e quando hou– vesse, os productos expontaneos da natureza. Como disse Amaro Cavalcanti, • o progresso estavel e con– tinuo de um povo só pode resultar da applicação do trabalho, de mais a mais intelligente e aperfeiçoado, creando cada dia novos productos industriaes e alargando a esphera de sua acção productiva sobre novos elementos existentes ou adquiridos •· Esse mesmo auctor predisse que « sob o regimem exclusivo da tróca de produdos naturaes pelos generos necessarios ao con– sumo, o Pará podia progredir, mas, a base do seu futuro se mos– trava muito precaria ... • A passo vacillante marchamos e retrogradamos no correr dos seculos, a mercê dos preços, da nossa producção insi– piente, nos mercados consumidores. De 1.429 contos em 1855-56, a receita do Estado cahe a 479 contos em 1856-57 ; mantem-se abaixo de mil contos até 1865-66, e attinge a 1.297 logo em seguida. Como nos tempos que correm, em dez annos não recon– quistamos o logar perdido. Decahimos sempre. Em 1867-68 attingio a receita a 1.482 contos e em crescen– do progressivo vae ella até 2.087 contos em 1872-73, cahindo no anno segui nte ( 1873-74 ) a 1.430 contos. Só em 1875-76 attinge a 2.159 contos, para cahir de novo a l.224 contos em 1876-77, mantendo-se abai xo de dois mil contos até 1880-81, quando de novo a tivemos em 2.458 contos. Em 1882-83 já attingia a 5.082 contos, para cahir ainda a 2.299 contos no anno seguinte ! Oscillando entre dois e trez mil contos, só em 1891 eleva– se de novo_ a 5.?38 contos, e num crescendo de 5 para 8.500, logo em pos, bai xa a 4.022 ( 1893-94 ) para de novo subir em 1894-95 a 10.192 contos! A subir sempre de an no para anno, attinge a 26.350 contos em 1898-99. ( 19.818 contos ouro ) para cahir em 1902 para 12.314 e subir a 16.909 em 1904, fica ndo entre 14 e 16 mi l contos até 1910, quand,o de novo attinge 20.255 contos papel, ou 11.817 contos ouro. l_"ivemos o seu maximo declínio em 191 4, quando a receita foi apenas de 8.197 contos papel, menos que o nosso c;stád10 em 1892. Tínhamos assim retrogradado quasi um quarto de seculo, com a aggravante de que naquell e anno a despeza do Estado era apenas de 7.658 contos e em 1914 esta tinha sido de 13.193, das quaes só uma pequena parte tinha sido paga. Na falta de um diagramma, resumamos isso num quadro, que melhor dará uma idéa do zig-zag em que vive o Estado, incerto e vacillante, com as suas finanças a refl ectir directamente no commercio e na confiança publica, no credito e na instabi– lidade de todas as cousas que nos cercam. Annos Receitas do E stado Annos Receitas do E stado 1855-56 - 1.429 contos 189r 5.038 contos 1856-57 - 479 « 1892 - 8.460 • 1865-66 - I. 297 • 1893 - 4.022 • 1867-68 - 1.482 • 1893-94 - 9.585 • 1872-73 - 2.087 « 1894-95 - 10.192 • - 1873-74 - 1.430 • 1898-99 - 26.350 < 1875-76 - 2.r59 • 1902 - 12.304 • 1876-77 - 1.224 « 1904 __: 16.909 • 1880-8r - 2.458 • 19ro - 20.255 • 1882-83 - 5.082 • 1915 8.197 • r 883-84 - 2.299 « lnstavel tem que ser o commercio de uma reg1ao em que a receita publica se reflecte proporcionalmente no quadro acima. Repousando tudo em um só producto que oscilla por si e . com o cambio que vae de 5 5 /s a 18d com differenças de 2d ás vezes em 24 horas, sabendo-se que esse producto, não sendo consummido no paiz, é cotado em esterlino, constituindo ainda materia de especulação nos mercados consumidores, variando, como o cambio de 2 a 12 schilings, não ha previsão possível, se esse producto não fôr amparado pelo paiz que o produz. Não ha orçamento capaz de equillibrar as finanças do Pará, sapiencia de estadista ou financeiro, perspicacia de banqueiro ou sagacidade de negociante que se possa firmar nesse mar revolto; que possa antever e precaver-se, antevendo o resultado de qual– quer negocio, que fica sendo dessa forma um verdadeiro jogo, onde todos se lançam ás cégas, como na mesa de uma grande roleta, cujo banqueiro é o governo ... que recolhe do trabalho do extractor, de 4 em 4 ou de 5 em 5 annos a tatalidade do capital, sob o titulo de imposto de exportação e outros que attingem por vezes a mais de 1/3 do valor do producto. Porisso todos teem pressa em se reti_r.ar d'aqui ; porisso ninguem se quer fixar a um sólo que vacilla a cada momento sob o~ pés do productor, _levando na voragem do tempo tudo quanto se haja produzido ; pori sso se esgota essa fonte de re– ceita de periodo em período; e se novos parceiros não entras– sem para a fornalh a, trazendo novos capitaes .. -. ha muito o banqueiro teria quebrado e a rolêta desapparecido. Mas, elles veem sempre, attrahidos pelo jogo, que os busca oride haj am os jogadores. Procurando ganhar sempre, muitas vezes a sorte lhes não sorri e ahi vão particul ares, commercio, bancos e emprezas ephemer.as que não podem viver em tal ambiente~ pois, a in– dustria tem uma elasticidade illimitada e quanto mais se des– envolve mais capitaes exige. E' como uma caldeira de grande pressão que, quanto mais aqu ece, mais combustivel exige. Se faltar esse combustível, cahe a pressão e com muito maior esforço e dispendio se conse– gue de novo attingir ao calôr anterior. Phenomenos para os quaes os homens não concorrem, re– gid os por leis economicas previstas em toda parte, como a im– migração, são aqui independentes da acç~o do Estado, criando um excesso de braços innuteis, quando e das seccas do meio– norte, exigi ndo recursos imprevistos, sacrificios aos que já se acham estabelecidos, peri odos de verd adeiro estacionamento que pagamos a preços excessivos até om epidemias, os quaes mais ou menos fixados, possam a aguardar uma alta de preços de borra– cha para dar um pulo a sua terra . .. ou lá ficar, pois qu e, tam– bem esse apprende aqui a ter mêdo de perder o que ganhou com tanto sacrifício. Dessa fórma temos um commercio sem igual no mundo .. . POR L U I Z C O R D E I R 0 O Estado do Pará de 1721 a 19 19 NO P R É LO Seu Commercio e Industrias e
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