Revista commercial do Pará - Janeiro - 1917

,..------- - -- 2 REVISTA COMMERCIAL DO PARÁ No qu adro não fig uram as dividas dos Municipios que, esti– mativa mente, and am por 600.000 contos internamente e por 5:, 15.000.000 no exterior, nem a divida da União, de cerca de 5:, 110.000.000 no exterior e 230.000 contos papel a consolidar e perto de 1.800.000 contos consolidados, não incluindo o papel moeda em circulação. Convenhamos que é verdadeiramente estonteador! Não podemos crer que se tenha extinguido essa phalange de bravos que jazem sepultados nas paginas da nossa historia. Esse espiri t"o de teimosia, insobordinação e rebeldia do nosso povo, nos demonstra qu e nas suas veias ainda corre o sangue de D. Fradique, de Diogo de Oliveira, Mathias de Albuquerque, Pedro Gama, Bar– balho, Mo reno, Henrique Dias e tantos outros que numa luta de o nze annos não se deixaram abater pelo jugo hollandez nem pelos ho rro res da g uerra. A expul são dos fran cezes em nad a foi inferior á dos holl ande– zes, e cada um dos nossos Estados regista nas paginas vivas da s ua historia, os nossos feitos e actos de bravura e perseverança. Dos Gu ararapes ao Prata, do Paraguay ao Acre, o brasileiro tem sido sempre o mesmo no momento da ltrta: sóbrio, valente, resis– tente, heroico, bravo, e nobre na victoria. Com um tal povo e em taes te rra s, não ha mil agre que se não fa ça. Po rque pois, ·discrer do nosso povo, da nossa ge nte, da nossa raça ? Se algo lh e falta, devemos procurar s upprir essa fa lta buscando o timoneiro de que se precisa. Aind a deve viver essa raça nobre e valorosa qu e não pode mo rrer, mesmo qu e lh e imponham o suicídio, suicidio a que se não pode suj eitar uma popul ação de 25 milhões de almas. Mostremos que queremos viver e vive remos. É mister, porém, sepa rar o joio do trigo. Ventejemol-o: O Snr. AUGUSTO RAMOS é um dos nossos melhores escripto res so bre fin anças e um dos que melhor diz o que pe nsa e o qu e sa be. Sem adh erirmos ás suas th eorias e ma– neira de ve r, com s ummo prase r lemos seus artigos. Não ha muito escrevend o so bre o CAMB IO E A SITUAÇÃO NACIONAL s. s. co– meçou divid indo a produ cção do paiz em du as partes: - a po rção que se consome e a po rção que se ex po, ta_ , dizend o qu e, - como habitua lme nte para o• co nsumo não bastam as sobras do qu e se exporta, vê-se o paiz na continge ncia de impo rtar o que lh e falta. Essa parte complementa r, diz s. s., -- • temos de paga i-a com o prod11cto ouro da exportação na po rcentage m qu e se to rn a neces– s:tria . Parece uma logica férrea em favo r da necessid ade de ouro e é um sofisma de que s. s. se serve ad iante para fug ir a essa ne– cessidade. Se não bastam as sobras do que se expo rta e se temos de im– portar o que nos fa lta, tendo o paiz de pagai-a com o produ cto ouro da exportação, uma vez que o não temos e se ndo ell e um a mercadoria com que se a paga, havemos de o paga r com pa pel moeda? Se assi 111 fo r, vae cada vez nos fa ltando a mercadoria de q11e carecemos, elevando-se o se u custo ou va lor, dep reciando-se os vales ou ced ul as que o represe nta na proporção da sua a bun– dancia no mercado. Assim, como consegu ir a estabil idade do cam– bio, que é a paridade entre esses dois factores na tróca, se cada ve7 fazemos encarecer um e barate iar outro? Não adm itte s. s. que o cambio seja o espelho da nossa situação econom ica e af– firma que promover a alta do cambio não é beneficiar o paiz ... é attentar contra a MOEDA, é destrui l-a, é deixar ás ton tas as classes todas do paiz, porque se lhes retira o padrão dos se us va– lores, o metro de suas tranzacções ... Mas, se o q11e produzimos, em 011ro, não chega para pagar– mos o que compramos em ouro, e só o ouro é o padrão 1110netario cln mu11do inteiro, seria mister que nos izolassemos do resto do 1111111clo e fugi~~cmos de buscar essa mf'rradorin de que carecemos, para p,,der rnos tornar a nossa moeda, que é papel, que é vale, que é lllll documento representativo de um valor a que nos obrigamos a pagar crn <1uro, - para que essa MOEDA, como a chama s. s., fosse o q111• clle quer e deseja q11e ella seja. l'arl'ce que 0 mais racional seria procurar equiparar os valores d<J 11<J so meio circulante ao do padrão m1111dial, que é ouro, e isto sc faz elevando a cotação dos as~ignados que o representa, o que sr:rá po:-sivcl, tão s1·,111ente, resgafando-05 o mais possível, a ponto de o tornar procurado, encarecido. Quanto menos documentos assignados na praça tiver um negociante, tanto maioi- será o se u credito; e, se esse negociante os retira da circulação, pagand o em especie o que compra, tanto maior será o seu valor, com qu e, não se preoccupará do credito a lhe ser concedido - que será igual ao valor das suas compras. A nossa importação de ouro foi avulta– dissima. Tomamos ouro a quem o tinha, para o pagar nessa mes– ma especie. Produzil-o, accumulal-o e reenviai-o ao seu ponto de partida, é uma lei infalivel, inevitavel e inviolavel para quem tem patente o sentimento da honra e do dever. Adquiril-o assignando mais promessas de pagamento, é augmentar compromissos para o futuro, é saccar para um porvir incerto e duvidoso. Só pelo traba.lho perseverante e pela economia poderemos at– tingir essa méta que todos devemos almejar. Trabalhando, porém, para produzir CEM e só obtendo DÊZ, é atormentador e exhaus– tivo; é permanecer num estado passivo de escravidão, to rturados por uma di vida que se não extingue e cada vez mais cresce. • De um modo geral, diz s. s., tem interesse na alta todos os que precisam comprar ouro ou mercadorias estrangeiras que só com ouro se pagam. • Á primeira vista assim parece. Os Estados, os Municipios, o Governo Central, tributam-nos na razão das s uas necess idades e na proporção do nosso trabalho. Do commercio nos vem qu asi tudo quanto precisamos na vida, desde o ves tuario até á pha rmacia. Se governos e commercio precisam de ouro e buscam-no dos nossos recursos, quem o paga? Quem dell e precisa em primeiro loga r? . Com o ouro, que impo rtamos, vi eram-nos g randes emprezas industriaes que se emaranharam em todos os ramos da nossa vida organica, empregando, ou tomando a seu serviço, milhares de pa– tricios nossos. Se essas emprezas precisam de ouro e o busca 111 dentro do nosso niercado e se qu em o produz somos nós, segue-se que dell e não carecemos? • Em geral não são os commerciante s qu e se , queixam da baixa cambial •, diz-nos s. s. Como se qu ei– xa rem se não são ell es que pagam a differença ? /\ s ua porcenta– gem de lucros é . a mesma, qu er s uba ou desça o cambi o ; o con– sumid o r é que tem de arcar com a differença. O que fatalment e se dá, qu and o o cambio haixa, é o encarecimento de tud o em ge– ral. Cada um procura se defend e r, defendendo os seus interesses. A industri a nacional procura equiparar o seu producto aos simila– res estrange iros ; o propri etario eleva o alug uel das casas • po rqu e está pagando tudo cá ro • e não as pod e alugar barato ; os reta– lhistas de ge neros alimenticios, estribados na mesma razão, nos alu g ueis mais caros, nos impostos maiores, procura ga nha r mais; os jo rn aleiros appell am para as gréves, assim como 0 5 marítimos e estivado res ; dahi a desord em . e as revoluções, consequencia da casa qu e não tem pão ... De facto « a maio ria da noss a popul ação não se appercebe quasi da baix a do cambio • e pessoas mesmo medianamente in struid as nos teem dito - qu e nada teem com o cambio ; mas , dize r qu e a po p11l ação da mesma fórma não experim enta benefi cio alg um co 111 a alta do cambio , é proposição de qu e nos afastamos do Snr ~M~- . O peior, po rem, é que a grande somma de pa pel moeda e n, circul ação, em um paiz o nde ming ua a confi ança publi'ca, vae re– pou~~ r nos Bancos para simples g llarda, qu e se vee m com isso hab1l1tados a ex pl o ra r um ge nero de negocio certo seguro e d pouco risco, de ond e aufe rem gra nd es lu cros, ex po /tando O noss e ouro, cr_ea nd o-nos maio r~s. di ff iculd ades, empobrece ndo-nos di a ~ di a, obnga ndo-nos a em,thr cad a vez mais va lo res represe ntati vos desse ouro que nos foge, com qu e se nos escravisa mais e mai pela som_ma ele res ponsa bilid ades que augmenta mos de a nno pa r! anno. Eis. o que o Snr. RAMOS chama a nossa felicidade. . S_e m_a ,or _nos não parece,_ actu ~Im ente, a nossa pobresa e quasi m1sena, e po1que todo o pa,z esta em mo ratoria, com os paga– mentos, em ouro, suspensos. Esperemos que se estabeleç'I a procura dessa mercado ri a e 111 maior escala e veremos a que taxa nos vae levar essa massa enor– me de pape l-moeda inconvers ível. 1

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