A Vida de Carlos Gomes

22 ITALA GOMES VAZ DE CARVALHO guindo a montaria. Cantam os canoeiros ven– cendo a correnteza dos rios, canta o derruba– dor das mattas, e as avósinhas encanecidas cantam, á noite, em rodas de creanças ! Qual a causa entre nós deste culto instin– ctivo e ardente do som e das harmonias ! Deve ser a intensa saudade dos tempos idos, a revi– vescencia do som e das vozes do meio am– biente, a interpretação singela do canto dos passaros entre as verdes ramadas - o cicio dos ventos sob as frondes do arvoredo, do ma– rulhar dos rios a serpentear entre pedras, das modulações do sabiá de dia e do garganteio da coruja á noite, do trinado dos canarios junto ao regougar das féras, de tudo, emfim, que fórma o sonóro festival da exhuberante Natu– reza brasileira, que Carlos Gomes traduzira com sua alma enthusiastica de poeta nas pa– ginas immortaes do "Escravo" e do "Gua– rany" ! Desde cedo foram revelados aos dois ir– mãos José Pedro e Antonio Carlos os myste– rios do contraponto e da fuga, pelo velho Pae, patriarcha energico que trazia a familia sob jugo severo, no intuito de perpetuar uma es– cola de musicos de rija tempera por um Ma– gisterio de Aço. Em parte, pela tyrannia paterna, e tam– bem muito pela natural tendencia dos filhos, em 1846, José Pedro, com doze annos, e Anto-

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